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Maio 26, 2008 at 7:15 pm (Uncategorized) ()

Começara a escrever sem destino. Não queria manchar o Caderno de Corda com palavras vãs, soltas, desconexas.

Sabia ter um fado por cumprir e uma mensagem por deixar; por escrever. Às tantas, não sei o que escrever, e amparo-me nas enciclopédias, nos livros de poesia – agora em Pessanha, Kerouac, Neruda e outros… Qualquer dia pego na Natália Correia. Por vezes penso poder deixar uma obra poética maior e mais pungente que a de muitos consagrados. Muitos talvez o tenham sido porque o seu tempo era de trabalhadores braçais, homens de suor e lágrimas mas seguramente não de palavras, livros e ócio. Homens de sobrevivência e de subserviência. Homens quebrados, vergados à sombra da necessidade de comer e dar de comer; homens analfabetos em grande parte. Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Pois disso não terão passado alguns dos consagrados poetas e escritores: homens de um só olho, sem concorrência no seu género laboral. Que se lixe a necessidade de agradar. Qualquer dia escrevo a distopia do novo século. Qualquer dia escrevo o romance pornográfico do novo século. Deixo os legados de Orwell, Huxley e Toffler numa merenda folhada de capa rija e a Margarida Rebelo Pinto a salivar, húmida como nunca onde mais interessa. Tenho de libertar esta angústia insaciável; este medo de falhar; esta raiva; esta inquietude. Tenho de me fazer aquele que virá; aquele que permanecerá além de mim.

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